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Narciso e Eco dos nossos tempos

Uma das marcas comportamentais mais perigosas do nosso tempo é o narcisismo. Tão ruim quanto, ou mesmo pior é a percepção de que há muitos ecos do comportamento narcisista. Pessoas ensimesmadas, com a atenção toda focada na própria vida e nos próprios projetos. Cegos ao que ocorre ao redor, multiplicam-se ideologias e indivíduos que negam as causas que exigem atenção à diversidade, que querem impor seu comportamento e visão de mundo aos diferentes e que são incapazes de
perceber que isso leva à própria destruição. 

Narciso, personagem importante na mitologia Grega, era filho de Cefiso e Liríope e um rapaz belíssimo, considerado por muitos, orgulhoso. Tirésias, por ocasião de seu nascimento, diz a seus pais que sua vida será longa, desde que não veja a própria imagem. Eco se apaixonou por Narciso, mas ele não lhe dava atenção. Em uma fonte, Narciso olhou e viu a própria imagem. Ficou enlouquecido de amor por aquela bela imagem. Ensimesmado e doentilmente apaixonado por algo que nunca poderia lhe retribuir o amor, porque apesar de parecer, não era a si mesmo, mas a imagem refletida, a aparência que tanto seduzia as pessoas ao seu redor. Alguns até dizem que ele se amava, mas mesmo nesta perspectiva, não amava algo que pudesse lhe completar, pois já era a si mesmo. 

 Para aplacar a dor desse amor tão torpe, Narciso mergulha na fonte em busca daquela imagem, mas morre afogado tentando encontrar ali, seu objeto de amor. Eco que buscava Narciso a todo instante, diante da sua ausência, agora total, petrificou-se e perdeu o dom da própria palavra.  

Se Narciso não consegue estabelecer laços com os outros, Eco apenas repete, tentando repetir a imagem idealizada de Narciso que se foi...  

 Uma tragédia. 

Verdade.

Freud trata deste mito como uma importante chave de leitura para o ser humano, pois há um momento na vida de todo ser humano no qual age como Narciso, cheio de si, ensimesmado, com a impressão de que o mundo gira ao seu redor e que todos suspiram por ele. Mas para Freud em O mal-estar na civilização (1930), este é um delírio infantil que deve, como no próprio mito, desaparecer, pois uma das mais desafiantes experiências humanas em sua busca pela felicidade é o confronto com o outro, com o que não é espelho e que solicita de nós algo, forçando que ganhemos e percamos no jogo de relações cotidiano.  

Trágico mesmo é notarmos que o Narcisismo não tem sido apenas uma experiência passageira na vida de muita gente.

O exercício de identificação não se parece mais com a ideia grega de simpatia, como se houvesse o encaixe entre os seres simpáticos, mas considerando que cada um tem sua “própria forma”. Está mais para um exercício de igualação, ou de encontro com o mesmo, como um olhar para o espelho. Pensadores como o filósofo Robert Redeker insistem que o crescimento dos fundamentalismos, preconceitos e ultraconservadorismos tem a ver com uma cultura do ego, do sujeito ensimesmado e individualista que chafurda na busca incessante do mesmo.    

Assim como Narciso não escutava Eco, os narcisistas não escutam os apelos dos outros, não conseguem compreender suas questões, seus temas e não conseguem estabelecer relação. Vivem juntos, mas só estão lá, pois não se movem na busca do outro e nem mesmo andam com o outro, mas buscam a si mesmos e pior, a imagem de si mesmos, lutando pela repetição da imagem refletida.   

 Pior que o narcisista, é perceber que muito se ecoa da imagem de Narciso e que há muitos que não são os “donos daquela imagem”, mas suspiram dia e noite pela concretização dela, pois estes são os simpatizantes destes modelos de beleza, recato, destreza, moral, fé ou seja lá o que for...  

Um efeito possível disso é a
incapacidade destes indivíduos todos compreenderem a diversidade. A falta de iniciativa para agir com e para o outro, enquanto ficam entretidos com coisas
que lhes dão prazer, notoriedade e bom nome, repetindo selfies, conectando-se apenas com semelhantes, elegendo pessoas que se “parecem” com elas e achando feio tudo o que não é espelho, como dizia Caetano.  

(texto de Michael Gonçalves da Silva e Fernando Chuí/Arte: Fernando Chuí)

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