Posts Mais Recentes

Vamos conversar sobre a dor?

 A dor aparece como tema de Baudelaire, Schopenhauer, Shakespeare ou mesmo tantos outros pensadores que perscrutaram a alma humana. A dor, na existência parece quase uma noção vital que aparece no
primeiro momento da vida com o feliz momento do choro da criança e muitas vezes, também está dramaticamente no fim da vida. 

A dor é algo com que convivemos ao longo da vida e me parece um terreno escorregadio e sensível, inclusive porque se dialoga pouco sobre isto. Creio que suportar a dor em alguns sentidos possa
ser algo interessante, bem como administrá-la quando possível. Fala-se por aí que estamos diante de muitos indivíduos flaneur,
um conceito de Bauman que traduzido significa viajante, como um turista, que de todas as experiências, tenta tirar apenas prazer. Acusa-se as pessoas do nosso tempo de hedonistas, inclusive no sentido de serem pessoas que fogem do sofrimento. Acredito que temos fugido mesmo é do diálogo sobre estes temas abstratos e difíceis que podem nos ajudar a embasar outros debates ideológicos e políticos. 

No mundo da enfermagem, discute-se que a dor seja o 5º sinal vital, depois da temperatura corporal, do pulso, da respiração e da pressão arterial, pois muitas vezes, o indivíduo que parece inconsciente, reage à dor.  

A dor seria uma experiência possível pela interpretação do sistema nervoso dos estímulos dos nossos sentidos, por isso, é entendida de forma muito subjetiva, pois considera-se que todo indivíduo sinta dor, mas um não consegue compreender exatamente como é a dor do outro. Óbvio que por analogia, podemos partir de referências pessoais, mas mesmo estas referências são muito variáveis. Muitas vezes me deparo com esta disparidade de compreensão quando digo às pessoas que tendo a resistir à dor, que evito tomar remédio para dores de cabeça ou mesmo no corpo, e a maior parte das vezes, alguém emenda: Você está louco, toma logo este remédio – diz isso enquanto saca o analgésico. 

Acho engraçado que nas academias se fale tanto de no pain, no gain (sem dor, sem ganho) e que nos hospitais, a diminuição da dor seja um padrão nos procedimentos. Tende-se a manipular quimicamente o corpo para que minimize a dor, exceto nos partos naturais que muita gente tem chamado de parto
humanizado. Quando se trata de qualquer cirurgia ou intervenção médica, minimiza-se a dor, quando se trata da mãe, a virtude é aguentar o trabalho de
parto com dores algumas vezes terríveis, por horas e horas. 

Por que a intervenção ao natural serve para prolongar a vida e o bem estar, mas quando se trata do início da vida, a natureza tem que seguir seu caminho? Isso me parece um argumento estóico (segue o curso da natureza!) que serve para isto e não para aquilo. 

Eutanásia e ortotanásia entram nesta dinâmica, pois a discussão sobre o sofrimento é bem abstrata até que se passe pela experiência de um ente querido agonizando. 

Jovens e adultos se mutilando e buscando diversas experiências de dor como fetiche (sufocamento, espancamento, penduramento em ganchos, body modifications dolorosas como a escarificação) parecem recorrer em papos meio secretos porque não podemos discutir isso tão ativamente e abertamente que é para não dar ideia! 

É importante não negar, não tornar tabu a dor e a busca pelo cessar dela, pois muitos comportamentos estão muito ligados à intervenção sobre o corpo. Religião, técnicas de respiração e meditação, drogas e muitas ações humanas estão migrando das representações mais comuns para extremos, tanto do banal, quanto da total negação da dor. Isso pode gerar indivíduos que não conseguem enfrentar a experiência dolorosa ou quemuitas vezes não empatiza diante da dor do outro. 

Por isso, ao invés de respostas, um convite ao diálogo: vamos conversar sobre a dor?  


(Texto: Michael Gonçalves da Silva/Arte: Fernando Chuí) 

Entre em Contato

Envie uma Mensagem

Um email será enviado para o proprietário
Endereço do Escritório
Envie-nos um email